quarta-feira, fevereiro 07, 2007

'Canto às mulheres: Voragem necessária'

'À mulher que tem artelhos dobrados, telhas na pele,
rugas de toda espécie, vendas nos sentidos.
Que não cantarola bálsamos, não espalha perfumes
na casa-corpo, cheira apenas a roupa bem passada,
a filhos educados, a marido ausente,
e que gasta toda sua alma à toa.
À mulher que esquenta comida em frigideiras rotas
e traz pés encardidos pelo caminho-desuso
e não sabe dos espasmos,
(ah! meu Deus, e não sabe dos espasmos)
e desconhece dedos-reentrâncias,
desfigura tempo e carne sólida,
salga de noite-lama o que lhe é sol e campo aberto.



À mulher que descuida de seus instrumentos:
saliva, lágrima, vermelhos, corrimentos
de perder guerra e visão, não previne futuro,
não prevê desertos aquecimentos, desvê a vida,
inata e triste, subjugada aos impropérios,
aos torpedos másculos. Não se imagina ventre.
Só se sabe túmulo, lixo, vazio.
À mulher que torrencia fugas e não desvela a que veio.
Veia parcimônia, amarga nuvem de medo.
Cedo ou tarde a noite vem, então a mulher que foge pouco dorme,
pouco tem a dizer. Anuviada correria. Guerra contínua.
Extraviada beleza. Poros desagüentados.



À mulher não amada que a tudo arma.
Maldade de espinhos, masmorras, grutas, gritos.
O que poderia ser maçã, relva, sereno, nunca serena,
apodrece torpe sobre pílulas, copos, gavetas.
Desconhece asas, atalhos. Quedas d’água sobre a nudez aflita.
Desconhece também leveza, futuro, tempo e misericórdia.
À mulher que finge alturas, poder
e luta mais pelo homem do que por ela mesma.
Lesma, dinheiro, usura. Aquela que se iguala
à nenhuma profundeza masculina e trai sua natureza.
Estranha à pele que lhe foi dada.
Arranha seu mistério. Verte sangue e verve de maneira inútil.
À mulher que se anula. Que descamba.
Escambo de desejo. Escama avessa às águas salgadas
do amor próprio. Engole silêncios, ausências, culpas.
Culpa-se. Assume para si mesma as traições,
os engodos, as forças físicas dos outros.
O mundo lhe pesa fardo sobre as costas.
Lâminas encostadas no coração.

À mulher mutilada. Por dentro e por fora.
Forma de escravidão. Negação perene do pensar, do ser.
Vítima. Castidade exigida a fogo e palavra de terror.
Mulher mula, carregadora de filhos, cestos, nulidades.
Seca nos olhos. Sentimento: só a raiva do não saber por quê.

Coragem de grandes luas. Virá tempo de exatidão,
viragem fêmea sobre o escombro homem.
O galgar das donzelas aptas:

Eva Pandora Maria Lucrécia Catarina Cesárea.
Ergo meu canto à mulher que trará a voragem:
a coragem necessária para a reconstrução do mundo.'

9 comentários:

intruso disse...

À mulher...

merdinhas disse...

O galgar das donzelas aptas...

menir disse...

Passo a passo até perder o fa(r)do.

@ disse...

Ainda existem?

holeart disse...

...

ainda existem?

ainda lhe falta esta:

"andei anos a levar no cu para nao ficar gravida"

uma obrigaçao... um frete ...

ao vivo e a cores.

Rubens da Cunha disse...

Oi Vera, obrigado por postar o poema.
Quanto ao comentário da holeart fiquei assustado e fascinado com a crueza. penso que esta mulher-frete mereça um canto exclusivo...

abraços
Rubens

linhas tortas disse...

À mulher alma dorida.

@ disse...

ó Hole!!..

@ disse...

(discutimos isso depois)