sábado, janeiro 27, 2007

Livro das Quedas




1

Um homem
vai no seu corpo
e subitamente
cai. Ouço
desmoronar-se
a sílica do coração.
E ouço também
a terra e o ar
acolherem os ossos
do filho pródigo.
Em si este acontecimento
não é nada original
mas dói. O vento
do Outono
morde-me os ossos
e dói.


144

A contemplação da morte salva os homens,
dizia Epicuro. Ainda não sei
o que fazer, vou contemplando
os campos em volta, os vinhedos, os
moinhos e trago-te minha amiga
um ramo de orégãos — coisa melhor não tiveram os deuses
quando deuses houve. Orégãos
e cristais coloridos
nestas mãos que detêm o segredo
do ar bravio. Com elas te acaricio
antes que a terra me ofereça
outros tesouros. Cair assim
é uma espécie de flutuação que salva
quem não espera salvação nenhuma.
Quando os corpos se amam
eleva-se um templo invisível
onde a fúria se instala —
nem só de vinho
se embriaga um homem.


texto: Casimiro de Brito

imagens: http://www.ericklarenbeek.com/

8 comentários:

holeart disse...

veraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

gode god!

ao entrar senti o cheiro do teu post

como podes...

nao digo.

Anónimo disse...

vim no rastro da tua senda:)

Anónimo disse...

Belo...
tão belo ...
dolorosamente belo !

Vera disse...

o primeiro anónimo sou eu (vera)

linhas tortas disse...

Belo sim, muito.

Frioleiras disse...

O segundo anónimo
sou eu ...
Frioleiras ...

linfoma_a-escrota disse...

Fomos um para o outro!
Também não faltava mais nada...
Rendi-me a suspiros que esvaziaram vilas de
whisky, transportaste teu mickey mouse por
entre brigas empolgantes sem preSERVAtivo,
dilacerei novocaína e a sucursal periférica
nasceu deveras e em todas as línguas grasnou
a quais perturbadores pontos de exclamação?

Apologias de tribunal emergem entre china white
widow whore e cabelos transfigurados que se adaptam
à metamorfose pela via láctea diluída na trincheira,
a fissão viu caras de marujos como objecção contra
o pasmado pastor das punhetas em pranto,
quando morreres minha alma terá desaparecido,
afastaste-te mas sentir-te perto mastiga o motivo
que resta e encaixota as campânulas ovais em mato
selvagem compenetrado por servir meus medos.

Cheguei a abanar os ombros para levantar vôo
nestas conferências de desintegrados que se
dilaceram no peganhento mel de abóbora encantada,
para reverem as borbulhas escuras e unguentar
com emboras cada boca sedenta de plena impaciência
ao reconquistar a saudade logo antes de te ter olhado.
Fico a dormir no rail de carga da vagoneta que
atravessará outra velada em escuridão trancilvânica,
mais coerente será cozer o crú e desejar a luz única
anunciada por crescimentos acelerados da biologia,
nunca aprendi a tabuada e já raciocinei longe daqui
mas custava-me encontrar-te sem surpresa entre as
palavras e suas letras, desbaratando sobre torpes isqueiros
retirei os prestes pedidos que até me faziam falta,
deixando para nunca advérbios que expliquem isto e
salvem repetições canónicas de odioso prumo afeiçoado.

Nasci no esgoto da feira popular da família atómica,
unicidade implica duplicidade que implica polaridade e
tons próximos revelam todos os piolhos encravados
a serem empalados por seus próprios neurónios, caso
recusem jogar nos matraquilhos da cavala-iguana,
apenas em visita de passagem para apalpar patrocinadores
da Causa, idênticamente disfarçada de mariajoana-ninguém.

Na auto-estrada recreativa podes raptar a bel-prazer
médios traficantes adeptos em representar consequências,
nem a saliva desesperada se cospe pois nada terá subvivido
se nesta última década te lembrares de mim uma vez só.

Anunciei espetar antinomias nas aporias e aposentar-me.

Mas precisaria da drástica reviravolta que deixa de julgar
as colinas, outrora apanágio de fúteis fortunas, condensando
todos os resquícios de ideias sobre gastronomia astronauta.

Talvez seja preferível aprender o que o mundo marginaliza e
sentir-me superior como todos os outros no seu prisma oblongo,
palram sobre predilectas lágrimas derramadas no escritório de
chamuça que aquece novo hímen implantado cirúrgicamente
na abécula secretária substituta das noitadas extraordinárias.

Todos estes dias para te esquecer e nenhuma paixão
pelas mega-modelo fará não te venerar antes de acordar.


j.m. 2004 in
quimicoterapia.

merdinhas disse...

"uma espécie de flutuação que salva
quem não espera salvação nenhuma"....